O objeto de interesse desta tese é a obra literária do escritor amazonense Milton Hatoum, essencialmente, a novela Órfãos do Eldorado. A pesquisa procurou se inserir no campo da história social da cultura e da linguagem. Nessa perspectiva, organiza a narrativa através de três frentes de abordagem. A primeira, tece um esboço da trajetória intelectual de Milton Hatoum, elucidando suas vivências e experiências nas cidades de Manaus, Brasília, São Paulo, Barcelona e Paris, verificando, suas principais matrizes intelectuais e imagéticas, construídas através dos contatos com a literatura brasileira e estrangeira. Para tanto, a análise parte do tempo do enunciado, inscrito nas obras do referido escritor, para alcançar um determinado diálogo desses enunciados com o chão histórico, vivenciado por Hatoum quando de suas experiências (sociais, políticas e culturais) ocorridas durante as passagens do escritor pelas mencionadas cidades. A outra frente de abordagem, verifica e analisa a ideia de história na literatura de Milton Hatoum. Nessa esteira, levanta a hipótese da intrínseca relação dialógica da obra literária do escritor amazonense com a concepção de história inscrita no pensamento do filósofo alemão Walter Benjamin. Pois tanto Benjamin como Hatoum assumem compromisso com a fundamentação de uma narrativa à contrapelo. lucidando, assim, a trajetória dos sujeitos que estiveram na história, porém, muitas das vezes aparecem de forma subsumida na Historiografia. A tese defende a hipótese de que a novela Órfãos do Eldorado assume um compromisso de refutar um monumento histórico: o mito viajante da cidade encantada, Eldorado. Nas curvas da narrativa de Hatoum, é possível afirmar que adotando-o como alegoria (a partir das definições de Walter Benjamin para este conceito), o mencionado escritor utiliza a imagem do Eldorado para propor uma outra história da Amazônia, no período que abarca os anos de 1890 a 1945, temporalidade inscrita na novela Órfãos do Eldorado. A terceira e última frente de abordagem, verifica e analisa as representações do urbano na literatura de Milton Hatoum, com destaque para o imaginário de três cidades amazônicas: Manaus, Parintins e Belém. Tecendo comparações entre as representações oficiais das referidas cidades, inscritas nos registros fotográficos, organizados através de álbuns e postais oficiais com as imagens inscritas no imaginário de Milton Hatoum, a tese compreende que o escritor amazonense surge, por meio de sua escrita criativa, como um espectador emancipado diante das fotografias elaboradas para se perpetuar uma determinada memória canônica das mencionadas cidades amazônicas.

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