O conhecimento de situações específicas sobre a escola indígena poderá contribuir para uma visão holística a respeito da escolarização de diferentes grupos étnicos, uma vez que, os elementos facilitadores e dificultadores da prática pedagógica, analisados individualmente, poderão evidenciar situações promissoras a respeito da prática do diálogo e, assim, pleitear uma educação intercultural contextualizada. Neste sentido, a minha dissertação busca compreender o processo de Educação Infantil (EI) vivenciado pela criança indígena Tentehar. A pesquisa realizada é de abordagem qualitativa do tipo etnográfico, sendo que o referencial teóricometodológico que embasa meu trabalho pauta-se nos estudos sobre fronteiras étnicas e sobre escola indígena como espaço de fronteira. Os instrumentos de coleta de dados que privilegiei foram: 1) observação in loco; 2) entrevistas semiestruturadas com dois professores, um supervisor e a assessora pedagógica da EI indígena e um ancião; 3) análise documental: Proposta Pedagógica do Município de Grajaú – MA para EI indígena, Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena e atividades didáticas e 4) registros fotográficos das atividades realizadas em sala de aula. Constatei que a educação intercultural entre as crianças indígenas Tentehar vem sendo realizada com uma série de contradições e de desencontros, a qual, talvez, seja explicada pelo binarismo: interculturalidade no discurso oficial e interculturalidade formulada por líderes dos movimentos indígenas, em que se pauta na valorização intracultural das identidades étnicas. Considero, portanto, que as bases epistemológicas do currículo vivenciado na EI Tentehar são totalmente eurocêntricas, apesar de a Proposta Pedagógica trazer no plano discursivo uma abordagem progressista de educação, ao organizar o conteúdo programático da EI se silencia diante dos conhecimentos relacionados às tradições, às crenças e aos valores da etnia Tentehar. Dentre os pontos de tensão da EI Tentehar destaco: as vozes ausentes do povo Tentehar no currículo escolar, carência de material específico e diferenciado, a forte presença de professores não indígenas e não falantes da língua materna e a pouca interação e/ou nenhuma entre professor não indígena e crianças Tentehar. Mas considero um ponto positivo a permanência do responsável da criança – normalmente uma mulher – durante toda a aula, porque deixa a criança mais segura. Embora o professor bilíngue-intérprete desempenhe um papel importante na realização da interação professor não indígena e as crianças, este convive com a ambiguidade e as contradições acerca de suas atribuições. Realizei a pesquisa em duas pré-escolas indígenas – em perímetro urbano e em área rural – todavia, não percebi grandes diferenças existentes entre ambas, reforçando a ideia da diferença versus homogeneização. Assim, considero que somente o discurso democrático do Estado acerca da educação intercultural, sem as condições de igualdade assegurada para que o intercâmbio entre os diferentes grupos aconteça, poderá ser muito mais um fator de exclusão social e cultural, do que a própria inclusão tão proferida nos discursos oficiais, a respeito da escolarização entre as populações indígenas
Educação Infantil Tentehar: Encontro e (Des) Encontros no Limiar de um Diálogo Intercultural
Neusani Oliveira Ives-Felix
Orientador(a)
Luiza Nakayama
Curso
Educação
Instituição
UFPA
Ano
2014