Esta pesquisa surgiu de questionamentos advindos do trabalho com crianças diagnosticadas com autismo e tem por objetivo fazer reflexões sobre a constituição do sujeito na perspectiva da psicanálise lacaniana. A referida síndrome, de acordo com o referencial teórico utilizado, é reflexo de uma possível falha na estruturação do sujeito como efeito da linguagem, e, dessa forma, nossa questão visa buscar subsídios para pensar como se dá o processo pelo qual o sujeito é invocado e capturado a adentrar no universo simbólico. Para tanto, fizemos um percurso dividido em quatro momentos: 1) o primeiro é uma revisão bibliográfica de autores que estudam o autismo numa abordagem lacaniana, o que possibilitou que nos aproximássemos da importância da relação sujeito-Outro e da inscrição significante para o processo constitutivo, que foram posteriormente esmiuçadas nos seguintes capítulos; 2) logo, no segundo momento, priorizamos a relação primordial com o Outro, bem como a desnaturalização do organismo em prol de um corpo regido pela pulsão, articulada à linguagem, e todo o movimento que decorre desse processo: o funcionamento da economia de desejo, a alienação e separação ao Outro, a erogenização das bordas e os circuitos pulsionais, que versam sobre a assunção de um lugar de fazer-se em relação ao Outro; 3) no terceiro momento refletimos sobre a estruturação do inconsciente como linguagem, a partir da inscrição do traço unário e do recobrimento do real pelo simbólico, que nos aproximou da ideia de um furo constitutivo originário da Austossug-Bejahung; 4) no quarto capítulo nos dedicamos ao estudo da pulsão invocante (ouvir, ser ouvido, se fazer ouvir), que julgamos ter um papel privilegiado na captura do sujeito a adentrar na linguagem, bem como o processo de erogenização promovido pela escuta de lalíngua, que participa da estruturação dos litorais do sujeito e de uma escrita do corpo numa borda entre o real e o simbólico, onde também situamos a inscrição da letra. Nessa perspectiva, nos apoiamos na possível transmissão que a literatura traz à psicanálise com o Canto das sereias da Odisseia e a Pequena sereia para refletir sobre o lugar de borda em que as pessoas diagnosticadas com autismo estariam situadas. Por fim, pensamos que este percurso contribui para psicanálise e a clínica do autismo na medida em que aponta para a possibilidade de um enlaçamento do real pelo simbólico, num trabalho de criação e invenção próximo ao do músico ou do poeta, que circundam o real constitutivo num movimento de constante reinvenção.
Autismo e Psicanálise: Uma Odisseia sobre a Entrada na Linguagem
Marcela Maria de Paiva Azevedo
Orientador(a)
Roseane Freitas Nicolau
Curso
Psicologia
Instituição
UFPA
Ano
2016


