Todos os anos, no Brasil, milhares de jovens se preparam para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e disputam vagas em instituições brasileiras. Ainda assim, tanto o Enem quanto a Fuvest, processo seletivo da Universidade de São Paulo (USP) e um dos vestibulares mais concorridos da América Latina, constituem universos relativamente modestos em termos numéricos quando comparados à escala de acesso ao ensino superior na China.
O Gaokao: o maior exame educacional do mundo
No centro do sistema educacional da China contemporânea, país com mais de 1,4 bilhão de habitantes, está o gaokao (高考), o exame nacional de ingresso nas universidades. Mais do que um simples vestibular, ele constitui um fenômeno social, político e emocional que mobiliza o país inteiro todos os anos. Em 2024, foram registrados cerca de 13,42 milhões de inscritos, um número superior à população total de muitos países.
Para milhões de jovens chineses, o gaokao representa a principal via institucional de acesso às melhores universidades do país e, consequentemente, de ascensão social. O desempenho em poucos dias de prova pode definir o futuro acadêmico, profissional e até familiar de um estudante, não só na China, mas também em contextos internacionais. Esse cenário resulta de um planejamento estatal de longo prazo.
Desde as décadas de 1990 e 2000, iniciativas como os Projetos 211 e 985 concentraram investimentos públicos na criação e no fortalecimento de universidades capazes de competir ao nível global. Mais recentemente, o programa conhecido como “Dupla Primeira Classe” (双一流建设) deu continuidade a essa estratégia, buscando consolidar instituições e áreas de excelência ao nível internacional. No topo dessa pirâmide educacional estão universidades de elite como a Universidade de Pequim (北京大学) e a Universidade Tsinghua (清华大学), ambas em Pequim, além da Universidade Fudan (复旦大学), em Xangai, onde tive a oportunidade de estudar como pesquisador visitante por um ano e observar diretamente o empenho na modernização acadêmica e institucional.
Assim como no Brasil, a dificuldade das provas é amplamente conhecida. No caso do gaokao, ele inclui três disciplinas obrigatórias: Matemática (数学), Língua Chinesa (语文) e língua estrangeira (外语). Na prática, a maioria dos candidatos realiza a prova de inglês, mas, como no Brasil, em algumas regiões da China há a opção por japonês, russo, francês, alemão ou espanhol. Em seguida, vêm as provas optativas, que variam conforme o curso desejado, como História, Direito, Medicina, Química, etc. Além dessas, há também provas específicas para cursos de artes visuais, música, dança, teatro e performance, que ganham grande visibilidade nas redes sociais chinesas, como WeChat (微信), Weibo (微博), Douyin (抖音), Xiaohongshu (小红书) e Bilibili (哔哩哔哩), que passam a divulgar intensamente imagens e vídeos desses exames práticos.

Fotografias como a mencionada abaixo frequentemente se tornam virais, chamando a atenção tanto do público interno quanto internacional. Elas mostram centenas de candidatos envolvidos em atividades como desenho, pintura, canto, execução instrumental ou interpretação cênica. Trata-se de um sistema paralelo ao das provas tradicionais, mas igualmente competitivo e exigente, revelando um universo que combina criatividade artística, disciplina extrema e rigor técnico.
O Exame Imperial (Keju): a raiz histórica da meritocracia chinesa
Embora o gaokao seja um exame moderno, sua lógica meritocrática, baseada na seleção de talentos por meio de provas rigorosas e na possibilidade de ascensão social, possui raízes profundas na história da China, em particular no ideal meritocrático confucionista e no sistema de exames imperiais conhecido como keju (科举). Esses exames, iniciados ainda na dinastia Sui (581–618) e estruturados de forma mais consistente durante a dinastia Tang (618–907), vigoraram por cerca de treze séculos, atingindo seu mais alto grau de complexidade durante as dinastias Ming (1368–1644) e Qing (1644–1912).
O keju constituía a principal, e em muitos casos a única, via de acesso à elite burocrática responsável por administrar o império em nome do imperador, e o percurso até o topo dessa hierarquia era longo, altamente competitivo e rigidamente estruturado. Como apresentado na imagem ao lado, o keju iniciava-se com os exames locais, realizados ao nível de condado e prefeitura, conhecidos como xianshi (縣試/县试) e fushi (府試/府试). A aprovação nessas etapas conferia ao candidato o estatuto de estudante oficialmente reconhecido, o shengyuan (生員/生员).

Em seguida, os aprovados podiam prestar o exame provincial, o xiangshi (鄉試/乡试), cujo êxito garantia o grau de licenciado, ou juren (舉人/举人). Os juren, por sua vez, eram então admitidos ao exame metropolitano, o huishi (會試/会试), realizado na capital imperial. Aqueles que obtinham sucesso recebiam o título de gongshi (貢士/贡士).
Por fim, os candidatos aprovados nessa etapa participavam do exame palaciano, o dianshi (殿試/殿试), conduzido sob a autoridade direta do imperador. Esse exame final classificava os concorrentes e lhes conferia o grau supremo de jinshi (進士/进士), o mais alto título da burocracia imperial chinesa.
Assim como ocorre com o gaokao contemporâneo, a escala do sistema de exames imperiais era monumental. Um exemplo emblemático é o Jiangnan Examination Hall (江南贡院), em Nanjing, que chegou a abrigar mais de vinte mil cubículos individuais, conhecidos como haoshe (号舍). O complexo funcionava como uma verdadeira cidade dedicada exclusivamente à realização de provas.
Paralelamente, desenvolveu-se uma ampla indústria pré-moderna de preparação para os exames. Academias privadas, conhecidas como sishu (私塾) e shuyuan (書院/书院), espalharam-se por todo o império. Nessas instituições, mestres renomados eram responsáveis por treinar futuros burocratas, utilizando manuais especializados e métodos intensivos de estudo, uma vez que as provas se centravam não apenas na memorização dos clássicos confucionistas, mas também na composição formal de textos segundo modelos rígidos, como o chamado “ensaio de oito partes”, ou baguwen (八股文), que exigia elevado domínio retórico e estrita conformidade estilística, como nos cursinhos de redação na atualidade.
Documentos e imagens do sistema de exames imperiais
No que diz respeito às provas, existem ainda hoje dois tipos de vestígios históricos. O primeiro tipo corresponde à chamada “prova preta”, ou mojuan (墨卷). Essa prova era escrita pelo próprio candidato sob rigoroso anonimato. Após o exame, o manuscrito era selado e entregue a um copista oficial, que a transcrevia integralmente em tinta vermelha, produzindo o chamado zhujuan (硃卷/朱卷), ou “prova vermelha”. Essa cópia era então submetida à avaliação dos examinadores, assegurando, assim, que a caligrafia do candidato ou eventuais marcas de identificação não influenciassem a correção.
Como registrado nas anotações palacianas, essas provas em vermelho também desempenhavam outra função: os exemplares dos candidatos mais bem classificados eram preservados nos arquivos do Estado e utilizados como modelos de excelência para o estudo de futuros candidatos. Nesse sentido, podem ser comparados às atuais coletâneas de provas anteriores ou aos bancos de questões utilizados por universidades e instituições avaliadoras.
Na imagem abaixo, observa-se a prova em tinta preta do exame metropolitano, redigida pelo candidato Sun Kaitu, e a cópia em tinta vermelha do exame metropolitano de sexto grau, realizada pelo candidato Luo Yun.


Uma vez concluído o exame palaciano, chegava o momento de tornar públicos os seus resultados. Após a decisão final do imperador, os candidatos aprovados, que recebiam o título de jinshi, participavam de uma cerimônia solene de proclamação dos resultados, durante a qual os nomes inscritos na lista eram lidos em voz alta na presença imperial. Esse ritual tinha um forte caráter simbólico, pois assinalava a entrada formal dos aprovados na elite burocrática do império.
Após a cerimônia, os nomes dos aprovados eram registrados na Grande Lista Dourada, ou Dajinbang (大金榜), e afixados do lado externo do Portão Chang’an Oriental, em um local de grande circulação pública. A lista permanecia exposta por três dias, permitindo que a população tomasse conhecimento dos resultados, sendo depois recolhida e arquivada pelo Grande Conselho. De certa forma, essa prática encontra paralelo em costumes que ainda sobrevivem em algumas universidades brasileiras, como a divulgação pública da lista de aprovados, algo que ainda fez parte da tradição da minha alma mater, a Universidade de Brasília.
No caso da imagem apresentada abaixo, trata-se da lista oficial dos aprovados no exame palaciano de caráter militar, conhecido como Wudianshi (武殿試/武殿试). A responsabilidade por sua afixação cabia, em determinados períodos, ao Ministério da Guerra, embora essa administração pudesse variar conforme o contexto dinástico. Ainda assim, o ritual seguia os mesmos princípios fundamentais: publicidade dos resultados, solenidade do ato e legitimação do mérito acadêmico perante o Estado e a sociedade.

Embora o sistema do keju tenha sido abolido em 1905, nos últimos anos da dinastia Qing, como parte das reformas de modernização conhecidas como Xinzheng (新政), o seu legado, marcado pela intensa competição e pela valorização da meritocracia, permanece profundamente enraizado na cultura chinesa.
Ainda que haja registros históricos que indiquem a existência de práticas como o pagamento de propinas para a aprovação de membros da elite letrada, persiste a crença no poder transformador da educação, e esse ethos educacional manifesta-se de forma inequívoca no gaokao contemporâneo, que pode ser compreendido não apenas como um exame moderno, mas como uma manifestação contemporânea de uma tradição cultural de longa duração.
O Keju e a sociedade chinesa segundo o Jesuíta Lusitano Joao Rodrigues
Para o jesuíta João Rodrigues Tçuzu (c. 1561–1633), conhecido na China como Lu Ruohan (陸若漢), que viveu no país a partir de 1610, durante o final da dinastia Ming, a sociedade chinesa era profundamente estruturada por esse sistema de exames imperiais. Em suas descrições, Rodrigues observa que a administração do império se baseava em um modelo claramente meritocrático, fundado na erudição confucionista, ainda que reconhecesse também a forte ênfase na ortodoxia moral e na reprodução de valores associados à tradição taoísta.
Segundo o missionário lusitano, os candidatos eram submetidos a provas extremamente rigorosas, que os conduziam a diferentes graus acadêmicos. Entretanto, ele também ressalta que, mesmo aqueles que alcançavam os mais altos cargos do Estado, como os jinshi, após anos de preparação e sucesso nas provas, continuavam a demonstrar profundo respeito por seus antigos mestres e por seus pais. Isso ocorria mesmo quando esses mestres ou familiares eram indivíduos de origem civil ou possuíam estatuto oficial inferior ao de seus ex-alunos. Tal comportamento estava firmemente ancorado no princípio confucionista do xiao (孝), a piedade filial.
Segundo Rodrigues, em banquetes e encontros sociais, o lugar de honra era frequentemente oferecido aos antigos professores ou ao familiar mais idoso, ainda que estivessem presentes altos funcionários do governo. Esse comportamento, ele observa, revelava um valor fundamental da sociedade chinesa: o vínculo ético entre mestre e discípulo sobrepunha-se, em muitos contextos, à própria hierarquia formal do Estado. Nesse ponto, Rodrigues chama a atenção de seu leitor na Europa renascentista para o fato de que esse comportamento estava fundado nas Cinco Relações (wulun 五伦). Conceito este presente no capítulo Teng Wengong (滕文公章句) de Mêncio na seguinte fórmula clássica:
“父子有親,君臣有義,夫婦有別,長幼有序,朋友有信”
Traduzida como: afeto entre pai e filho; justiça entre soberano e ministro; distinção de funções entre marido e esposa; ordem entre o irmão mais velho e o mais novo; e confiança entre amigos.
Rodrigues relata, ademais, episódios observados durante duas décadas, durante as quais viveu na China. Um em particular, ele diz que, ao ser convidado a ocupar o assento de honra, esperava-se que o convidado recusasse inicialmente, modestamente, dizendo algo como: “Tomei um lugar que não me pertence.” Os demais insistiam então: “É o lugar adequado para Vossa Senhoria.” Esse ritual de hesitação, deferência e aceitação final sintetizava a lógica confucionista da reciprocidade e da valorização do mérito moral, expressa precisamente no princípio do li (禮), que pode ser encontrado nas chamadas Cinco Virtudes, ou wuchang (五常): benevolência (ren 仁), retidão (yi 義), ritualidade (li 禮), sabedoria (zhi 智) e fidelidade (xin 信).
Dessa forma, para Rodrigues, a sociedade chinesa articulava duas dimensões complementares. De um lado, a virtude interior, cultivada por meio da educação e dos exames, que fundamentava a meritocracia pessoal. De outro, os ritos exteriores e públicos, que materializavam e reforçavam os laços sociais.
Assim, mesmo em um sistema no qual a ascensão dependia dos rigorosos exames imperiais, eram a ética relacional, expressa no termo chinês guanxi (关系), e a piedade filial (xiao, 孝) que conferiam coesão, continuidade e legitimidade às hierarquias sociais. Um indivíduo que, mesmo aprovado nas provas mais difíceis e elevado ao grau de jinshi, não demonstrasse respeito por seus mestres e familiares era visto como ingrato e moralmente falho, perdendo o reconhecimento social que o sucesso acadêmico, por si só, não bastava para garantir.
Do Keju ao Gaokao: continuidades e transformações
A China contemporânea, embora inserida em um contexto social, político e tecnológico profundamente distinto daquele do período imperial, mantém viva a crença no poder de um exame nacional rigoroso e padronizado como instrumento capaz de selecionar talentos, legitimar elites e promover mobilidade social em uma sociedade historicamente marcada por uma população numerosa e por intensa competição.
Contudo, como historiadores atentos aos riscos do anacronismo, o gaokao não deve ser compreendido como uma continuidade institucional direta do sistema keju, mas antes como a manifestação contemporânea de uma herança cultural profundamente enraizada, na qual a educação e o desempenho em provas ocupam um papel central na organização social e na construção de trajetórias individuais.
Nesse sentido, como sugeriria Fernand Braudel, apesar das profundas transformações institucionais e tecnológicas, certas estruturas de longa duração permanecem operantes. O espírito de perseverança e a esperança individual de ascensão social por meio do estudo continuam a ressoar na sociedade chinesa como expressões duradouras de valores associados à tradição confucionista, revelando a notável persistência de padrões culturais que atravessam séculos sob formas historicamente renovadas.
Referências
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