
Começo esse texto já avisando que não sou uma fiel apreciadora de comédias românticas. A não ser, claro, daquelas em que o cinismo, o humor e a crítica social se sobrepõem ao romance.
Mas vez ou outra me encanta, além da procura de respostas ou julgamentos, a forma como o cinema tenta traduzir aquilo que na realidade costuma ser confuso, contraditório e difícil de nomear. E dentro desse território, O Drama, filme que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros dia 9 de abril, entra como uma obra que não pede permissão e tampouco tenta suavizar o campo minado de polêmicas que está propondo. Pelo contrário, ele parece interessado justamente em expor o que existe de instável por trás de relações que, à primeira vista, parecem perfeitamente harmoniosas.
Dirigido e roteirizado pelo norueguês Kristoffer Borgli — conhecido por trabalhos como Doente de Mim Mesma (2022) e O Homem dos Sonhos (2023) — e produzido pela festejada A24, o filme se apoia em uma estrutura simples, quase minimalista, para construir algo que vai se tornando gradativamente denso e pesado. Com pouco mais de 100 minutos de duração, o longa evita distrações externas e mantém o foco quase exclusivo nos personagens principais.
A fotografia intimista de Arseni Khachaturan – que tem no currículo o encantador e assustador Até os Ossos (2022) – aposta em enquadramentos limpos e controlados e luz natural, enquanto a trilha de Daniel Pemberton – que fez mais recentemente a trilha de Devoradores de Estrelas (2026) – acompanha sem interferir demais, como se respeitasse o silêncio e o espaço das cenas. Existe uma sensação constante de contenção técnica, como se tudo estivesse sendo cuidadosamente medido para não ultrapassar um certo limite, uma contenção que reflete os esforços dos personagens em manter o status quo e os planos da suposta festa de casamente ideal.
Atuações, construção emocional e linguagem visual
Mas o que acho que realmente sustenta o filme são as suas atuações. Zendaya, uma das grandes estrelas da nova leva de atores estadunidenses – famosa por trabalhos como Euphoria (2019), Homem Aranha: Sem Volta Para Casa (2021) e Duna (2021) — faz o papel da noiva Emma, e entrega uma personagem que nunca se revela completamente. Existe sempre uma camada a mais (assustadora) ou um detalhe suprimido de uma história, o que faz com que a gente nunca tenha total segurança sobre quem ela é ou o que ela está pensando. Já Robert Pattinson, como o noivo Charlie – conhecido tanto pelo filme O Farol (2019) quanto por Batman (2022) – segue um caminho quase oposto, construindo sua performance de forma gradual, deixando as emoções aparecerem aos poucos, muitas vezes mais na atuação física do que nas palavras.
A relação entre os dois não oferece conforto em momento algum. Não há aquela química fácil e agradável que conduz o espectador. O que existe é tensão, pensamentos intrusivos à exaustão, hesitação e uma sensação constante de desalinhamento. E é, a meu ver, exatamente aí que o filme encontra sua real força. O Drama começa com uma aparência muito próxima de uma narrativa romântica contemporânea, com todos os elementos reconhecíveis, mas aos poucos vai deslocando esse terreno.
Não há uma ruptura brusca, mas sim uma mudança crescente de temperatura. Quando a gente percebe, já não está mais assistindo ao mesmo tipo de filme que parecia ser no início. A incrível e inesperada virada que ocorre logo no começo nos tira da zona de conforto. E isso pode incomodar. Especialmente quem espera algum tipo de condução mais clara e protocolar ou respostas mais diretas.
O elenco de apoio também contribui para essa sensação de instabilidade. A sempre sensacional Alana Haim, que chamou muito a atenção em filmes do Paul Thomas Anderson como Licorice Pizza (2012) e Uma Batalha Após a Outra (2025), e Mamoudou Athie, como Mike, seu marido, aparecem em papéis que ampliam o desconforto em vez de suavizá-lo. Rachel, a personagem de Alana, é a personificação da incendiária, e Mike, personagem de Mamoudou, o mediador perplexo.
Tematicamente, O Drama gira em torno de percepção e construção. Sobre o quanto conhecemos o outro e o quanto projetamos. Sobre relações que, muitas vezes, funcionam mais como uma encenação do que como um espaço genuíno de trocas sinceras. Existe também uma ideia muito forte de performance, principalmente em contextos sociais onde tudo precisa parecer certo, equilibrado, funcional, como aquela foto perfeita e instagramável de uma festa de casamento dos sonhos. O filme não vai nos explicar essas questões, ele só observa e deixa para nós o julgamento. E essa escolha poderia afastar parte do público, mas ao mesmo tempo é o que dá força à experiência.
Visualmente, essa ideia de tentar manter o controle aparece o tempo todo e de uma forma cada vez mais angustiante. Vemos os enquadramentos iniciais organizados, quase simétricos, passando uma sensação de estabilidade que, aos poucos, vai sendo tensionada e destruída. O espaço principal onde a história se desenrola, o apartamento do casal, funciona quase como uma extensão dos personagens. Nada ali parece por acaso, mas também nada chama atenção de forma óbvia. É um tipo de ambiente que vai se infiltrando devagar, indo do perfeito conforto ao medo e sufocamento.
Sintonia técnica quase perfeita
Nos bastidores, dá para perceber um alinhamento muito claro entre direção, elenco e equipe técnica. A proposta inicial nunca parece se perder ou se contradizer. A direção de arte de Katherine Black, segue uma linha minimalista, sem excessos, onde cada elemento parece ter uma função específica dentro daquele universo. Não existe, portanto, uma “gordura” visual, o foco são as atuações. A fotografia reforça a gradual sensação de distanciamento entre os protagonistas, como se os personagens estivessem sempre um pouco isolados, mesmo quando estão juntos. E esse trabalho é impactante e revelador, talvez até mais do que gostaríamos.
A própria divulgação do filme, que conseguiu guardar em segredo o principal plot twist até a sua estreia, garantindo a reação forte do público, seguiu esse caminho mais indireto, apostando em estratégias menos óbvias, o que me pareceu combinar bastante com a proposta da obra. Nada aqui parece interessado em se explicar completamente, nem dentro nem fora da tela. Existe uma coerência nesse posicionamento que, gostando ou não, é difícil de a gente ignorar.
O que fica conosco quando o filme termina é menos uma resposta e mais uma sensação (des)agradável. O Drama não tenta resolver convencionalmente os conflitos que apresenta, nem oferecer conclusões confortáveis. Ele observa e insiste, e isso pode dar a impressão de que não está indo a lugar nenhum. E talvez não esteja mesmo. Mas isso parece fazer parte da proposta. Fazer parte da realidade.
Verdade seja dita, O Drama não é um filme fácil, nem particularmente acessível. Exige paciência, uma mente aberta e uma certa disposição para lidar com o desconforto e com a ambiguidade e contradições humanas. Mas também é justamente isso que faz com que ele permaneça conosco no final da sessão e em conversas. Não porque resolve alguma coisa, mas porque deixa questões em aberto. Porque sugere que intimidade, desejo e conexão não seguem uma lógica tão clara quanto a gente gostaria, e que sempre recebemos de bandeja em muitas comédias românticas. O Drama definitivamente não veio ao mundo para estimular fantasias de contos de fadas e princesas da Disney.
E só isso já coloca The Drama em um lugar bastante interessante dentro do cinema recente. A festejada produtora A24 parece estar voltando a acertar em suas escolhas de roteiro.




